No Rastro do Boi #3
Nesta edição: Mato Grosso, Tocantins, mercado asiático, acordo Mercosul-UE e início de ano eleitoral
O final de 2025 foi de movimentos em diferentes direções no Pará. O estado realizou a primeira exportação de carne bovina com rastreabilidade individual e, no mercado interno, entregou o primeiro lote rastreado para uma grande rede atacadista. Por outro lado, a implementação do Sistema de Rastreabilidade Bovídea Individual do Pará (SRBIPA) foi adiada para 2031 sob a justificativa de que os esforços realizados não refletiram na abertura de novos mercados.
Também no último trimestre, pouco antes da COP30, vimos o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) lançar o Beef on Track, primeiro sistema no mundo a certificar carne livre de desmatamento.
Na primeira edição de No Rastro do Boi em 2026, falamos sobre desdobramentos do Passaporte Verde (Mato Grosso), uma visita técnica para avanço da pauta no Tocantins, novidades do mercado asiático, nas relações com a União Europeia e as eleições que estão por vir.
DA PORTEIRA PRA DENTRO
Audiência pública em Mato Grosso
Após a sanção da lei que estabelece a Política de Sustentabilidade da Pecuária em Mato Grosso (Lei n° 13.153/2025), os pequenos produtores foram incluídos no debate em uma audiência pública sobre o Passaporte Verde, programa de monitoramento socioambiental das propriedades pecuárias no estado.
O evento reuniu representantes do governo estadual, do Instituto Mato-Grossense da Carne (IMAC), vereadores e produtores rurais, os principais beneficiários nos planos de regularização ambiental e reinserção no mercado formal.
Caio Penido, presidente do IMAC, instituição parceira da Sema/MT na implementação do programa, ressaltou em reportagem da TV Assembleia que a questão, principalmente em um território rico em biodiversidade como o Mato Grosso, é complexa e pode culminar na exclusão de pequenos produtores, elo mais vulnerável da cadeia. Nesse contexto, lembrou que o papel do IMAC é prestar apoio e ser um intermediário entre o produtor e órgãos como o Ministério Público, Sema e Ibama, para antecipar possíveis riscos e evitar bloqueios comerciais.
A Secretária Adjunta de Gestão Ambiental da Sema/MT, Luciane Bertinatto, afirmou que o programa já está em pleno funcionamento para acelerar o processo de validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e atuar no desembargo de propriedades de até quatro módulos por meio do Prem, Programa de Reinserção e Monitoramento do IMAC destinado ao monitoramento da regeneração de áreas desmatadas ilegalmente nas propriedades pecuárias.
Assista abaixo a gravação da audiência:
Vizinho do Pará avança na pauta
Quase no apagar das luzes de 2025, uma comitiva tocantinense realizou visita técnica em Santa Catarina, estado pioneiro na identificação individual de bovinos e bubalinos, para conhecer de perto o sistema desenvolvido pela Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc).
A viagem foi feita em parceria da Agência de Defesa Agropecuária (Adapec) com a Secretaria de Estado da Agricultura e Pecuária para intercâmbio de experiências e boas práticas para estruturação de um modelo que proporcione segurança sanitária e mais qualidade aos produtos, além de proteção à saúde pública.
O estado adotará este ano, de maneira voluntária, a implantação da rastreabilidade bovina, e já abriu conversas com produtores e instituições parceiras para debater a implantação do Sistema de Identificação Individual e Rastreabilidade de Bovinos e Bubalinos (Sirbov/TO). O Grupo de Trabalho que conduz as atividades conta com representantes de órgãos do governo do estado, instituições estaduais e federais, representantes do setor produtivo e da organização internacional The Nature Conservancy (TNC).
Em encontro realizado no dia 12 de fevereiro, o presidente da Adapec, Rodrigo Guerra, enfatizou que os primeiros passos estão sendo dados rumo a uma prática que é tendência dentro e fora do país, e que os mercados exigem cada vez mais garantias.
Confira na matéria como foi a reunião.
Disputas narrativas em ano eleitoral
Com a proposta de avaliar de perto o que tem engajado multiplicadores de mensagem e ganhado relevância em canais do agronegócio, o Instituto Akorde lançou recentemente o Law & Agro. O material é vivo, direto e traz análises narrativas e curadoria de conteúdos sobre os principais temas que permeiam esses espaços.
Em sua edição mais recente, foi colocada em pauta a disputa de novos públicos por meio do reforço de símbolos nacionais e resgate de uma figura conhecida por aparições em programas da TV aberta. Hoje, cumpre o papel de porta-voz do desenvolvimento econômico na região amazônica.
Mulheres decisoras do agro
Ainda que não estejamos falando em equidade, é possível observar um movimento de mulheres produtoras de conteúdo técnico sobre o agro nas redes sociais. Elas também aparecem cada vez mais em cargos de liderança, tanto em empresas do setor quanto nas fazendas. Aqui, podemos citar como termômetro o podcast Vozes Agrifatto, comandado por Lygia Pimentel, fundadora da consultoria, e que sempre recebe mulheres para suas entrevistas.
Entre tantas vozes e em tempos de influencers nos mais diferentes segmentos, um nome se destaca: Kellen Severo. Ela é hoje uma das pessoas mais relevantes do agronegócio e capaz de influenciar efetivamente as tomadas de decisão. Seja no quase diário #3em1Agro, no “O que pode virar manchete” para abrir a semana ou no “AgroResumo”, um balanço semanal, nada escapa: economia, mercado, eleições, geopolítica… a comunicação é ágil e as análises são precisas. A cereja no bolo fica por conta de tópicos em que a jornalista consegue se conectar afetivamente - e com maestria - tanto com o produtor rural quanto com o cidadão comum, a exemplo do vídeo abaixo:
Vale acompanhar também a pecuarista Carmen Perez, referência em bem-estar animal e colunista da Forbes Agro, e Naiara Nantes, que traz conteúdos que encontram um equilíbrio perfeito entre comunicação com o produtor e gestão profissional do negócio.
Guerra do leite
A prática de importar leite em pó, reconstituí-lo e levar às gôndolas do mercado como leite fluido é uma saída para baratear um produto essencial para o consumidor e tem sido um dos principais motivos de embates no agronegócio nacional. O produtor rural vê seu produto ser desvalorizado e sofre com uma concorrência considerada desleal. Afinal, é ele quem leva à mesa um alimento de maior qualidade e que arca com altos custos provenientes da crise.
Nos últimos dias, o assunto escalou para a política institucional. Em Santa Catarina, foi sancionada uma lei que proíbe a reconstituição de leite em pó importado. Vimos também, em âmbito federal, o congresso aprovar um projeto de lei idealizado pela Associação Brasileira dos Produtores de Leite - ABRALEITE. Ele determina que o comércio e a indústria devem exibir informações claras sobre os produtos e proíbe representações que possam induzir o consumidor final ao erro, a exemplo dos leites vegetais.
O contexto de crise abre espaço para mais disputas narrativas e Ana Carolina Lana surge como mensageira confiável no setor e outro exemplo de mulher decisora e influente. No post abaixo, a jovem sucessora da Fazenda São Miguel, em Piranga (Minas Gerais), traz uma polarização geopolítica para a sua perspectiva de mercado:
DA PORTEIRA PRA FORA
Mercado Asiático
Enquanto o debate interno gira em torno de prazos e voluntariedade, o Brasil pode dar, neste mês, outro importante passo no processo de abertura de mercado para a carne bovina com o Japão, um dos maiores importadores do mundo e conhecido por seguir rígidos critérios sanitários.
O agendamento de uma missão técnica do Ministério da Agricultura, Florestas e Pesca (MAFF) japonês foi comunicada ao governo brasileiro em dezembro. A auditoria sanitária acontecerá nos três estados da região sul do país e será a sexta de 12 etapas para o almejado acordo bilateral de abertura de mercado para carne bovina. As próximas fases seriam apenas documentais.
Na relação com a Coréia do Sul, após mais de 15 anos de estagnação, houve uma retomada concreta nas negociações de abertura de mercado para carne bovina. As conversas aconteceram no final de fevereiro, em visita de comitiva do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) ao país asiático. O tema foi tratado como prioridade pela delegação, que reforçou o convite para a realização de auditorias sanitárias em frigoríficos brasileiros.
Ainda que nenhum compromisso tenha sido firmado, a visita pode ser encarada como um pré-movimento de consolidação de parâmetros fitossanitários para início das exportações. Um passo estratégico para a diversificação de mercados e redução da dependência de outros compradores no continente, a exemplo da China, que estabeleceu medidas de salvaguarda às importações de carne bovina - para o Brasil, a cota anual é de 1,1 milhão de toneladas com uma taxa de 55% em caso de volume excedente.
Acordo Mercosul-UE: Rastreabilidade como infraestrutura essencial
O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia é outro assunto que, depois de muito tempo, vive seus episódios finais. Foram mais de 25 anos de negociações até a assinatura em 17 de janeiro de 2026. Nos últimos dias, foi aprovado na Câmara dos Deputados e no Senado.
O novo contexto coloca a rastreabilidade como ponto de convergência entre compromissos climáticos, combate ao desmatamento ilegal, respeito às legislações nacionais e previsibilidade comercial. É o que aborda Lisandro Inakake, Vice-presidente da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável, em artigo na edição 226 (fev/2026) da Revista Feed&Food.
No entanto, ele alerta para o processo de adaptação do produtor brasileiro, enfatizando que as novas oportunidades de mercado não podem refletir em exclusão da cadeia formal, e sim dar sustento a uma pecuária resiliente e escalável.
Confira aqui o texto completo.
A situação da rastreabilidade bovina no país também foi tema de um debate online realizado pela Mesa Brasileira de Pecuária Sustentável. O evento contou com as participações de Lisandro Inakake, Michelle Borges (gerente executiva) e Aécio Flores (coordenador do GT de Rastreabilidade), e apresentou um panorama técnico e estratégico sobre a implementação da rastreabilidade. Assista:
EUDR: adiamento não é cancelamento
Ainda que a Regulamentação Antidesmatamento da União Europeia (EUDR) tenha sido adiada pela segunda vez e só vá entrar em vigor ao final deste ano, o ecossistema produtivo conta com alguns insumos para o período de adaptação às novas regras. A Plataforma AgroBrasil+Sustentável, por exemplo, possui desde dezembro uma função para identificar se a área de produção atende às exigências de países importadores.
No campo teórico, a consultoria Olab lançou em janeiro o guia “Da Lei à Lavoura: Instrumentos Brasileiros de Conformidade às Exigências de Legalidade da EUDR”, robusto material que analisa como as cadeias de suprimento agrícolas brasileiras podem atender aos requisitos da lei.

O relatório concluiu que o Brasil já possui um conjunto significativo de instrumentos que podem fornecer conformidade legal à EUDR, com o Cadastro Ambiental Rural (CAR) no papel de espinha dorsal das análises de grande parte dos requisitos. Os principais desafios identificados estariam relacionados à desigualdade na implementação por parte dos estados, na integração entre bases de dados e na existência de áreas de incerteza, como datas de corte para desmatamento ilegal, por exemplo.
Confira aqui o material.
VEJA TAMBÉM
Protocolo de medição de emissões: pensando nos desafios de padronização de contabilização de emissões relacionadas ao uso da terra (cerca de 25% das emissões globais de gases de efeito estufa), foi lançado em fevereiro o Land Sector and Removals Standard, novo padrão do GHG Protocol. O LSR Standard auxiliará empresas de diferentes portes e segmentos a calcular, reportar e acompanhar esses dados com mais precisão. Sua utilização terá início em 1º de janeiro de 2027. O GHG Protocol é uma iniciativa em parceria do World Resources Institute (WRI) e World Business Council for Sustainable Development (WBCSD).
CNN Agro: a emissora estreou em 9 de fevereiro uma frente de cobertura jornalística de setores que sustentam o PIB nacional. O eixo voltado ao agronegócio nasce com o objetivo de conectar o tema com o público urbano. Veja em cnnbrasil.com.br/agro.







