No Rastro do Boi #7
Nesta edição: Reorganização econômica, unificação de cadeias, gigante nacional na contramão socioambiental e veto da UE mantido
O mês de julho reforçou os debates em torno do crédito rural e do endividamento do produtor brasileiro com o anúncio do Plano Safra. Este, trouxe consigo a criação de novas iniciativas sobre riscos climáticos e gestão territorial.
Neste boletim, falaremos também de novos estudos, de um projeto de lei que pretende levar a rastreabilidade ao pequeno produtor, da tecnologia influenciando o acesso a crédito e de novidades nas relações com a União Europeia, EUA e China.
Boa leitura.
DA PORTEIRA PRA DENTRO
Crédito, riscos climáticos e regularização fundiária
O anúncio do Plano Safra 2026/27 foi feito pelo governo federal em 30 de junho, com R$ 525,1 bilhões de crédito para médios e grandes produtores rurais. Entre as novidades, a proibição da utilização dos subsídios em projetos que prevejam a remoção de vegetação nativa.
Durante o evento, o ministro André de Paula (Mapa) oficializou a criação de um grupo de trabalho com o objetivo de avaliar e mitigar os efeitos do Super El Niño na produção agropecuária. O GT também terá integrantes do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) e da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).
Ainda no dia 30 de junho, foi publicado um decreto que institui a Política Nacional de Governança da Terra e cria o Programa Terras do Brasil, com foco na regularização fundiária, gestão territorial, transparência e integração de bases de dados.
Três semanas depois, o Ministério da Fazenda autorizou a equalização de juros para financiamentos no setor. O mecanismo permite que o Tesouro arque com parte do custo das operações e, assim, proporciona taxas mais acessíveis aos produtores. O total de recursos equalizados é de R$ 141,921 bilhões, dividido entre agricultura empresarial e familiar.
Também em julho, o governo federal publicou a MP 1376, que trata da renegociação das dívidas de produtores impactados por adversidades climáticas ou de mercado entre 2019 e 2025. A medida deve alcançar aproximadamente R$ 100 bilhões em débitos.
Sistemas desintegrados
O WRI Brasil publicou uma análise sobre as 21 iniciativas existentes no Brasil para promoção de cadeias sustentáveis de carne e soja, e mostrou que o país possui uma base robusta de ferramentas de monitoramento, legislação e dados. No entanto, falta integração entre elas.

O estudo "Rastreando a Responsabilidade: Fortalecendo o Monitoramento do Desmatamento nas Cadeias de Suprimento de Soja e Carne Bovina do Brasil", lançado no último dia 27, propõe a criação de um marco de referência unificado para ambas as cadeias, e destaca três iniciativas que já possuem integração entre elementos-chave de rastreabilidade e conformidade: o Protocolo de Monitoramento de Fornecedores de Gado para a Amazônia (PMFGA), o Protocolo Verde dos Grãos do Pará (PVG) e as plataformas SeloVerde (PA, MG e MA).
Ele também lista 10 recomendações prioritárias para cadeias livres de desmatamento:
Saiba mais no blog do WRI Brasil
40 anos de desmatamento na balança
Uma investigação da Mighty Earth com dados do aplicativo Do Pasto ao Prato revelou que mais da metade (ao menos 54%) da carne encontrada em 38 lojas do Grupo Mateus vem de frigoríficos sem nenhum compromisso ambiental, que compram de áreas com foco de queimadas e/ou de propriedades ligadas ao trabalho escravo.
As informações se tornam ainda mais preocupantes pelo tamanho da rede, presente em mais de 110 cidades e 10 estados das regiões Norte e Nordeste. Segundo o ranking 2025 da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), a terceira maior varejista do país em faturamento. Em março deste ano, ela já havia sido a pior avaliada em relatório sobre compromissos públicos contra o desmatamento entre empresas envolvidas nas cadeias de carne e soja.
A Mighty Earth solicitou ao Grupo Mateus uma atualização e publicação de suas políticas de compra com base nas conclusões da investigação, mas até o momento da finalização deste boletim, não obteve resposta.
Em matéria da Folha de S. Paulo publicada no dia 15 de julho, a empresa afirmou que “não compactua com práticas ilegais em sua cadeia de fornecimento”.
Acesse o material completo
Rastreabilidade inclusiva
Um projeto de lei do deputado federal Carlos Henrique Gaguim (União/TO) propõe a criação da Política Nacional de Capacitação em Inovação Tecnológica para a Rastreabilidade Bovina Individual na Agricultura Familiar e nas Pequenas Propriedades Rurais – PNCIT.
O PL 3332/2026 tem o intuito de democratizar o acesso à tecnologia de identificação individual ao capacitar produtores, oferecer assistência especializada e desenvolver plataformas mais simples para o controle do rebanho.
Além das ações complementares ao Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB), também está prevista a ampliação do crédito rural para investimento em rastreabilidade. Agricultores em situação de vulnerabilidade social, mulheres e produtores situados na Amazônia Legal terão prioridade no acesso às ferramentas propostas pelo PL.
Saiba mais no portal Conexão Tocantins
Law&Agro
O Law&Agro #9 propôs uma reflexão sobre acesso a crédito e renegociação de dívidas como pontos centrais de uma reorganização do setor - não só econômica, mas também cultural.
O texto mostra como personagens-chave, no papel de âncoras técnicas, influenciam processos produtivos e ganham a confiança do produtor em um cenário de juros elevados, incerteza climática, custos de produção altos, mercado externo volátil, apagão de mão de obra e queda nos preços das commodities.
Saiba mais em lawandagro.agr.br e assine para receber as próximas edições.
Tecnologia como garantia
Dez vacas de uma fazenda em Imbituva, no Paraná, foram utilizadas como garantia na obtenção de crédito. A prática não é exatamente uma novidade, o que chamou atenção foi a presença da tecnologia como agente facilitador.
A operação foi registrada na B3 e realizada por meio da “tokenização” dos animais, com um registro digital que permite o monitoramento contínuo e fornece dados de localização, saúde e comportamento, o que oferece mais segurança ao credor.
As duas empresas envolvidas, uma fintech e a outra responsável pela tecnologia de monitoramento, projetam a liberação de R$ 5 milhões em crédito em procedimentos desse tipo ainda em 2026.
Veja mais em matéria do Globo Rural
DA PORTEIRA PRA FORA
União Europeia: veto mantido
A União Europeia manteve a decisão de proibir a importação de carne brasileira pela falta de comprovação sobre o uso de antimicrobianos. A medida começa a valer no dia 3 de setembro e seu impacto econômico pode chegar a US$ 2,4 bilhões anuais.
Após semanas de negociações técnicas e apresentação do que seriam garantias de conformidade com as regras do bloco europeu, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) considera agora recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC).
De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, foram ignorados diversos pedidos de reunião antes da publicação da decisão, ainda no início de 2026. As informações constam em documento obtido pelo R7.
Implicações para as cadeias de Carne e Couro

Um relatório técnico do Climate Rights International (CRI) analisou o impacto de novas normas europeias sobre as importações de carne e couro do Brasil: o Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), o Regulamento Europeu sobre Trabalho Forçado (Forced Labour Regulation – FLR) e a Diretiva sobre Devida Diligência em Sustentabilidade Corporativa (Corporate Sustainability Due Diligence Directive – CSDDD).
O documento lista as exigências para a importação, seus principais obstáculos e possíveis consequências da não conformidade. O material destaca a dificuldade de rastreamento de fornecedores indiretos e aponta como primeiro passo a priorização de negociações com empresas de estados brasileiros que já possuem mecanismos capazes de identificar o vínculo destes com áreas de desmatamento.
Sem pedágio para o boi
As sobretaxas impostas pelos Estados Unidos a parceiros comerciais não atingiram o gado brasileiro, isentando carne, couro e peles de novas tarifas. A decisão ocorre em um contexto de baixa no rebanho do país norte-americano, mas sob a justificativa de investigações com base na Seção 301 de sua legislação comercial, que apura práticas de mercado consideradas desleais. Nosso café, que corresponde a um terço do que os EUA importam, também foi poupado.
No entanto, ainda que a decisão beneficie os dois lados, um novo alerta pressiona os frigoríficos do Brasil e reforça a importância da aceleração da agenda de rastreabilidade e combate ao desmatamento para evitar que novos bloqueios ou tarifas aconteçam. A leitura do cenário é de Camila Trigueiro, pesquisadora do Imazon, em reportagem do portal O Eco.
Cota no limite
O Brasil atingiu 80% do teto anual estipulado pelos chineses para exportações sem a aplicação da taxa adicional de 55%. Como o monitoramento é feito apenas sobre a carga desembarcada em solo chinês, não considerando produtos em trânsito, é provável que o limite já tenha sido atingido.
Autoridades chinesas negaram o pedido brasileiro para a redistribuição de cotas que não foram usadas por outros países exportadores. O momento é de busca por outros destinos para a carne brasileira, mas segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), não há mercados isolados que absorvam sozinhos o que é destinado ao país asiático.
AGENDA
Zerando o desmatamento na prática: a origem da carne e o papel dos supermercados no Brasil
• 7 de agosto, sexta-feira
• 11h - 12h30 (Horário de Brasília)
• Bioma Food Hub: Av. Cidade Jardim, 377 - Itaim Bibi, São Paulo - SP
A mesa-redonda “Zerando o desmatamento na prática: a origem da carne e o papel dos supermercados” deve contribuir com as discussões sobre Agricultura e Sistemas Alimentares, um dos eixos da SPCW26. Com foco nos impactos da cadeia da carne, a mesa abordará os compromissos de Desmatamento e Conversão Zero (DCF), a conformidade com o TAC da carne e a necessidade de uma maior transparência sobre a origem dos produtos nas prateleiras e do monitoramento das cadeias de fornecimento que abastecem o varejo nacional.
Cadastro e mais informações: https://luma.com/xxaxo9na
Webinar Agro Brasil+Sustentável: Como demonstrar conformidade à EUDR - Lições de um dry-run na cadeia pecuária
• 12 de agosto, quarta-feira
• 10h (Horário de Brasília)
• Online (com tradução simultânea PT-EN)
A entrada em vigor da European Union Deforestation Regulation (EUDR) apresenta à cadeia produtiva da carne bovina um novo patamar de exigência: comprovar, de forma documental, que a produção é livre de desmatamento e está em conformidade com a legislação nacional. Esse desafio requer a articulação de múltiplas bases de dados, documentos e atores ao longo da cadeia. Diante desse cenário, a Plataforma Agro Brasil+Sustentável (AB+S) surge como a principal infraestrutura oficial do governo brasileiro para atender a essa demanda, integrando as principais bases de dados públicas em um único ambiente para qualificação socioambiental.
Inscrições e mais informações: https://us02web.zoom.us/meeting/register/Yp6BveD1TySPyZD7ZmhI_Q#/registration
Divulgação dos Resultados: 3º Ciclo Unificado de Auditorias do TAC da Carne na Amazônia
• 20 de agosto, quinta-feira
• 8h30 - 13h (Horário de Brasília)
• Auditório da FAMATO: R. Eng. Edgar Prado Arze, s/n - Centro Político Administrativo, Cuiabá - MT
Especialistas, lideranças do setor e órgãos de controle se reunirão em Cuiabá (MT) para a divulgação oficial dos resultados do 3º Ciclo Unificado de Auditorias do Boi na Amazônia Legal. O encontro apresentará os indicadores consolidados de conformidade socioambiental dos frigoríficos signatários dos compromissos de compra responsável de matéria-prima. Na ocasião, também serão expostos os balanços e as inovações das análises automáticas de dados geoespaciais, fundamentais para coibir a entrada de animais criados em áreas desmatadas ou embargadas.
Inscrições e mais informações: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSezudwmteXMFRVRF3EcW2AXUq9hKkSkBjDmymK-4Hz6FDEv5A/viewform
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Imagem do setor: 65% dos produtores rurais brasileiros acreditam que são vistos de maneira negativa pela população urbana. O dado é da 9ª Pesquisa Hábitos do Produtor Rural, realizada pela ABMRA - Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro, que contou com 3100 entrevistas presenciais em 16 estados. Confira
Moratória da Soja: um artigo publicado pela Revista Science analisou os impactos do fim da Moratória da Soja e projetou o aumento de 17% no desmatamento da Amazônia nos próximos 10 anos - cerca de 1,4 milhão de hectares adicionais que podem resultar na emissão de 745 milhões de toneladas de CO₂. Veja mais informações








