O veto da União Europeia à carne brasileira teve início no mesmo período em que o país realizou sua menor venda de carne à China desde 2021, reforçando a busca por novos destinos.
Neste boletim, falaremos das negociações para exportação, das auditorias do TAC da carne na Amazônia, avanços no Tocantins, estudos, projetos-piloto e uma campanha de comunicação que acabou de sair do forno.
Você verá também as propostas da Embrapa para mitigação dos efeitos do Super El Niño e a pauta climática ganhando contornos interessantes no Law&Agro.
Boa leitura.
DA PORTEIRA PRA DENTRO
Auditorias do TAC da Carne
O 3º Ciclo Unificado de Auditorias do TAC da Carne na Amazônia mostrou que aproximadamente 8% do gado comercializado com frigoríficos localizados na Amazônia Legal nos anos de 2023 e 2024 carregava algum tipo de irregularidade.
Os dados foram divulgados pelo Ministério Público Federal no dia 20 de agosto com informações do Acre, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins - este último, o único que posicionou-se dentro do índice considerado aceitável pelo MPF, de até 4% de inconformidades. O mesmo índice foi alcançado por 32 frigoríficos.
A gravação do evento está disponível no canal MPF no YouTube. Os dados apresentados podem ser conferidos neste link.
Rastreia-TO
O Programa de Rastreabilidade de Bovinos e Bubalinos do Estado do Tocantins teve, no último dia 22, um trabalho técnico coordenado pela Seagro - Secretaria de Estado da Agricultura e Pecuária.
A atividade prática da Prova de Conceito (PoC) foi realizada na cidade de Tabocão, com brincagem de 250 bovinos com cerca de 18 meses de idade. Os participantes passaram por um treinamento no dia anterior, mesma data em que a Seagro publicou a portaria que institui o comitê gestor do programa.
Rastreabilidade e reinserção comercial
O Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) lançou, no início de setembro, o relatório "Estratégias Integradas para a Cadeia Pecuária Brasileira: Lições práticas sobre rastreabilidade individual e requalificação comercial para a cadeia bovina no Brasil”. O documento foi produzido com base em projetos-piloto feitos no Pará em parceria com a Amigos da Terra - Amazônia Brasileira e a Fundação Solidaridad.

O relatório aponta os frigoríficos como peça-chave da cadeia por serem os pontos de convergência entre produtores e mercado, além da importância de incentivos econômicos compartilhados e acompanhamento técnico para reduzir a resistência às iniciativas.
Uma reportagem do Globo Rural destacou o piloto da Amigos da Terra e o papel dos frigoríficos que aderiram ao TAC da Carne como potenciais agentes de mudança por meio de suporte técnico a pequenos e médios produtores. O projeto apoiou a identificação de 26 mil animais de 59 produtores em 14 cidades, e avaliou que é possível agregar escala à iniciativa e ter, no Pará, 30% dos animais identificados até 2030 - cerca de 7,5 milhões de bovinos.
Veja mais no site do Imaflora.

Beef on Track: o Imaflora abriu uma consulta pública sobre a primeira versão dos documentos normativos do BoT - Beef on Track. Comentários, sugestões e recomendações podem ser enviadas por meio deste link até o dia 1º de novembro.
Nem toda carne é igual
O Siga o Rastro, projeto da Amigos da Terra - Amazônia Brasileira, lançou recentemente uma nova campanha de comunicação com foco na percepção do consumidor final sobre rastreabilidade na cadeia da carne.
A experiência levou seis pessoas a um restaurante, onde foram oferecidos cardápios distintos: um deles com informações sobre a origem da carne que seria servida e, o outro, sem essas informações. Os pratos eram os mesmos.
Após a refeição, as participantes compartilharam suas impressões com a equipe da organização. Assista e siga para mais novidades:
Gado, madeira e ouro
Uma parceria da Abrampa (Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente) com o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) publicou em agosto o livro “Gado, madeira e ouro na Amazônia Legal: desafios e iniciativas de rastreabilidade e transparência”. O material traz um dos mais completos diagnósticos já produzidos sobre as três cadeias que mais impactam a floresta amazônica, e identifica fragilidades comuns entre elas.

Entre as recomendações para a cadeia de bovinos está a integração das GTAs (Guias de Trânsito Animal) a bases como o CAR e o cadastro de áreas embargadas, hoje pouco acessíveis, para reconstituir o histórico de movimentação dos animais. O relatório também aponta para as dificuldades relacionadas a fornecedores indiretos, citando investigações sobre animais que foram criados em áreas de grilagem e transferidos para fazendas regulares antes do abate.
Os principais achados do estudo forneceram insumos para duas notas técnicas com recomendações para o aprimoramento de políticas públicas:
Veja mais informações no site do IPAM.
Mitigação de riscos climáticos
De olho no Super El Niño, a Embrapa entregou ao Mapa uma nota técnica com 163 medidas para reduzir riscos climáticos. 14 são transversais a todo o setor agropecuário, 139 específicas por segmento produtivo e dez voltadas à viabilização de políticas públicas. O documento foi elaborado pelo grupo de trabalho criado em junho para avaliação dos efeitos do fenômeno na produção brasileira.
Ainda que o contexto atual tenha motivado a produção do documento, a presidente da Embrapa, Silvia Massruhá, reforçou que ele adota medidas amplas de redução de riscos que podem preparar o produtor para desafios cada vez mais recorrentes. A organização trabalha atualmente em notas técnicas com recomendações regionalizadas, que devem ser lançadas em breve.
Law&Agro
Do nosso último boletim pra cá, duas novas edições do Law&Agro foram publicadas.
A décima mostrou como a ala mais conservadora do agronegócio utiliza a pauta climática para justificar os prejuízos no setor na tentativa de institucionalizá-los. O texto reforça que o momento pode facilitar os diálogos sobre meio ambiente entre diferentes camadas do espectro.
No L&A #11, outro tema que já foi muito mais indigesto para o agro financeirizado do que é hoje: as emissões nos processos produtivos, tendo o biometano como principal agente que agrega produtividade e lucratividade.
Apagão de mão de obra
A próxima edição do Law&Agro vai falar de um assunto que, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, é o que mais assombra o produtor rural atualmente: a falta de mão de obra no campo.
Um levantamento da CNA divulgado em agosto mostrou que essa escassez preocupa mais do que custos e fatores climáticos, e que há produtores mudando de atividade e até reduzindo seus planos de expansão. Quase 95% dos entrevistados relataram dificuldades na contratação de trabalhadores.
Veja em matéria do Globo Rural.
DA PORTEIRA PRA FORA
União Europeia dá início ao veto
Começou a valer no dia 3 de setembro o veto da União Europeia à carne brasileira. A suspensão veio poucos meses após a assinatura do acordo de livre-comércio com o Mercosul e vale para bovinos, suínos, frango, pescados, mel e ovos.
Uma análise do site Política e Agro reforça a leitura de que por trás da exigência sanitária existe uma disputa por mercado. A reportagem traz uma entrevista com Augusto Reck, veterinário e mestre em Ciências Veterinárias pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ao podcast “No Agro, Pod!”.
O especialista afirmou que o Brasil possui sistemas de exportação com capacidade de demonstrar conformidade e precisa continuar não só os aperfeiçoando, mas também trabalhando para defendê-los.
Veja mais no artigo do Política e Agro.
Agro Brasil+Sustentável e EUDR
Foi lançado em 12 de agosto o estudo “Agro Brasil+Sustentável: Como Demonstrar Conformidade à EUDR Usando a Plataforma Pública”, com o objetivo de testar na prática a ferramenta brasileira em relação à conformidade com a EUDR, lei antidesmatamento da União Europeia.
O projeto-piloto de exportação teve supervisão da GIZ (via projeto SAFE), participação do Mapa e coordenação da Olab, além da parceria com um frigorífico e colaboração da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC). A experiência identificou que a AB+S é funcional, permite agilidade na emissão de relatórios e é capaz de cumprir as exigências de conformidade.
Os principais gargalos apontados foram tecnológicos, em relação a processos que dependem do portal gov.br. Estes, já foram ou estão sendo solucionados pela SERPRO - Serviço Federal de Processamento de Dados. Também houve casos de fazendas com problemas não identificados no Cadastro Ambiental Rural (CAR) e a necessidade da utilização de sistemas privados de rastreabilidade.
A gravação do evento está disponível no canal da Olab:
Cota da China derruba exportações
As exportações de carne bovina caíram 27,1% em agosto em comparação ao mesmo mês em 2025. Se considerarmos apenas o que foi enviado à China, o recuo foi ainda mais acentuado, de 89,8% - 16 mil toneladas contra 158 mil em agosto de 2025, o menor volume para um mês desde dezembro de 2021. Apesar dos entraves, o acumulado do ano segue positivo: alta de 4,7% em volume e 22,3% em valor.
Na última semana, após encontro em Nova York do presidente Lula com Yamandú Orsi, presidente do Uruguai, foi divulgado que os vizinhos sul-americanos aceitaram ceder ao Brasil parte de sua cota excedente de exportação ao país asiático. No entanto, a oficialização da operação depende de anuência dos chineses.
Para onde vai a carne
Neste contexto, outros destinos ganham importância: nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump informou que o Brasil está entre os fornecedores prioritários, ao lado da Argentina. O anúncio veio um dia após reunião com Joesley Batista (JBS).
A Indonésia habilitou 21 novos estabelecimentos brasileiros para exportação - agora são 73 autorizados, no total. Japão e Coreia do Sul seguem como os mercados premium mais almejados pelo país. As negociações avançam, mas trâmites burocráticos apontam para o início das exportações apenas no segundo semestre de 2027 ou início de 2028. A apuração é de Fernando Henrique Iglesias, analista do Safras & Mercado.
AGENDA
El Niño na pecuária: impactos e estratégias para enfrentar os desafios climáticos
• 29 de setembro, terça-feira
• 19h - 20h30 (Horário de Brasília
• Online, via Zoom
O El Niño será o ponto de partida para uma conversa mais ampla sobre soluções e estratégias permanentes de adaptação às mudanças e aos eventos climáticos adversos, pensando em como produtores, técnicos e demais atores do setor podem se preparar e responder a esses desafios.
Serão cinco convidados para aproximar o conhecimento técnico das experiências vividas no campo, discutindo os impactos de eventos climáticos, como o El Niño, sobre a atividade pecuária, e apresentando estratégias de adaptação e práticas que podem apoiar produtores e técnicos diante dos desafios climáticos em diferentes realidades regionais.
Inscrições e mais informações: metanonapecuaria.s.gy/WebinarElNino
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Seguro Rural: o Senado aprovou o PL 2.951/2024, que trata da reformulação do marco legal do seguro rural. O texto cria condições de crédito diferenciadas para quem contrata seguro e viabiliza a regulamentação de um fundo para de cobertura de riscos - o chamado “Fundo Catástrofe”. Até o momento do fechamento deste boletim, ele ainda não havia sido sancionado. Veja mais
Moratória da Soja: o STF declarou a moratória constitucional e, ao mesmo tempo, validou as leis de Mato Grosso e Rondônia, que retiram benefícios fiscais de empresas signatárias do acordo. Em artigo publicado no Globo Rural, a gerente de Relações Governamentais da BMJ Consultores Associados e consultora em relações governamentais, Karina Tiezzi, levanta a questão: como aliar sustentabilidade, competitividade e segurança jurídica em um ambiente de incentivos contraditórios à adoção de boas práticas? Leia
30 anos de Geneplus: a CNN mostrou como o programa de melhoramento genético da Embrapa Gado de Corte, criado em 1996, alavancou a produção pecuária brasileira. Acesse a reportagem
Sucessão familiar: o interesse do jovem pela atividade pesa mais nas decisões de sucessão do que renda ou produtividade, é o que afirma uma tese de doutorado da Feagri/Unicamp feita com cafeicultores de nove municípios. O estudo aponta que apenas 5% das propriedades familiares chegam à terceira geração. Veja mais







